Nome do autor: Álvaro Vieira Pinto
Titulo da obra: Sete lições sobre a educação de adultos
Editora Cortez Março 2003 (118p)
Nas primeiras páginas desta obra, o autor relata as experiências com os estudos na área de medicina, filosofia e os idiomas que dominava. E demonstrou ser de sua extrema importância o ato da relação entre sociedade e educação.
Obra lançada em 1982 e essa é a 13°edição, é praticamente igual à primeira, foi modificada apenas a impressão. Este livro contribui para o desenvolvimento do público que se relaciona com a Educação de Jovens e Adultos, trazendo análises para que o professor e outros envolvidos com esta modalidade de ensino, consigam refletir sobre a prática das metodologias em sala de aula e fora dela.
O livro está divido em duas partes. Na primeira apresenta a Introdução, que contém uma entrevista informal cedida a Dermeval Saviani e Betty Antunes de Oliveira, e alguns subsídios que facilitam ao leitor situar no contexto da vida e da obra do autor os temas abordados. Na segunda parte, desenvolve os temas propriamente ditos “As Sete Lições sobre Educação de Adultos”, oriundos de roteiros de aulas-conferências proferidas no Chile, em 1966, quando se encontrava exilado, transformados em livro por sugestão de seus colaboradores.
Durante a entrevista, o autor tece críticas em relação aos desencontros do ato de educar, revelando que é indispensável o caráter de encontro das consciências no ato da aprendizagem, visto que a educação é uma transmissão de uma consciência à outra, de alguma coisa que um já possui a outro que ainda não tem, bem como esclarece pontos fundamentais de sua formação e trabalho desenvolvido.
As sete lições abordam questões que traduzem conceitos, concepções, enfim, o pensamento filosófico naquele momento histórico vivido pelo autor, mas atualíssimo, sobre o tema “Educação de Adultos”.
No primeiro tema, resgata o campo teórico do conceito Educação, processo pelo qual a sociedade forma seus membros à sua imagem e em função de seus interesses. Seu caráter histórico e antropológico possibilita uma visão de educação como processo influenciado pela sociedade, que determina possibilidades e condições, probabilidades, meios e fins gerais da educação. A educação é também fator de ordem consciente determinada pela consciência social e objetiva do sujeito, de si e do mundo.
No segundo tema, o autor enfatiza a diferença entre conteúdo e forma de educação, e prioriza a relação de interdependência entre ambos. Deixa claro que só se diferenciam pela análise conceitual, à luz da qual aparecem como opostos, porém, identificam-se na constituição de um ato real único.
Indagações como “a quem educar”, “quem educa”, “com que fins e meios” remetem a uma distinção entre a consciência ingênua e a crítica, deixando claro que a finalidade da educação é a mudança da condição humana do indivíduo que adquire o saber de forma substantiva, alterando o ser do homem.
Pinto aborda ainda o caráter ideológico da educação, visto que se trata de um fenômeno social total, misto de interações e conexões recíprocas, e como tal não pode ser dissociada, tratada isoladamente. Tal pensamento nos remete à alienação educacional como uma característica da atividade pedagógica, alertando para a necessidade imprescindível de que o educador se converta a sua realidade, sendo antes de tudo o seu próprio povo, passando da consciência ingênua à crítica, compreendendo a educação como prática social, intransferível de uma sociedade à outra, servindo aos objetivos e interesses das lutas pelo desenvolvimento e transformação do homem.
No terceiro tema, o autor retoma de forma mais explícita a concepção ingênua, que à luz da filosofia não inclui, em sua representação da realidade exterior e de si mesma, a compreensão das condições determinantes que a fazem pensar tal como pensa; isto é julga-se como um ponto de partida absoluto e acredita que suas idéias vêm dela mesma e assim provêm da realidade. Nesse contexto, concebe o educando como ignorante em sentido absoluto e como objeto puro da educação, vista como a transferência de um conhecimento absoluto, abstrato, finito, a-histórico, sendo dever moral da fração adulta, culta, detentora do saber.
Em oposição à concepção ingênua, o autor enfatiza aspectos da concepção crítica, que é a representação mental do mundo exterior e de si mesmo e que compreende que o mundo objetivo é uma totalidade na qual se encontra inserida e é, por essência, histórica. Aqui, o educando é visto como detentor de um saber, no sentido do conceito de cultura e sujeito da educação, nunca objeto dela, já que essa se concretiza num diálogo amistoso entre sujeitos. O conhecimento é visto como produto da existência real, objetivo, concreto, material, do homem em seu mundo.
No quarto tema, o autor aborda a educação infantil e a educação de Adultos pela importância de ambas na vida do homem. Deixa claro que a alfabetização de adultos é processo pedagógico qualitativamente distinto do infantil e o que distingue uma modalidade da outra não é o conteúdo, os métodos, as técnicas de instruir, mas sim os motivos, os interesses que o contexto sócio-politico-cultural, como um todo, tem quando educa a criança ou o adulto.
O quinto tema aborda as considerações sobre o estudo particular do problema da educação de adultos, aqui vistos na fase mais rica de sua existência, plena de possibilidades, evidenciando e enfatizando a realidade do trabalhador e o conjunto de conhecimentos básicos que possui.
Pinto lembra que a educação do adulto não pode ocorrer separada da educação da criança. Essa, por sua vez, deve ser simultânea à primeira, enfatizando que é um erro condenar os adultos à condição perpétua de iletrados e concentrar recursos da sociedade na alfabetização das faixas etárias menores, mais barata e de maior rendimento futuro. Erro sociológico, que supõe o adulto culpado pela sua própria ignorância. Assim, para lidar com a educação de adultos faz-se necessário considerar a sua condição de sujeitos pensantes, dotados de experiências referentes e ao seu círculo de existência, portadores de idéias, dotados de capacidade intelectual e, conseqüentemente, atuantes e úteis a sua sociedade. O autor refere-se também às camadas iletradas da população, que tendem a ser mais homogêneas pelas próprias condições em que vivem. Assim, a educação de adultos visa a atuar sobre as massas para que estas, pela elevação de padrão de cultura, produzam representantes mais capacitados para influir socialmente. Desta forma, é imprescindível que a competência do educador se concretize na prática de um método crítico de educação de adultos e que dê ao educando a oportunidade de alcançar a consciência crítica instruída de si e do mundo, por meio de conteúdos e atividades de real significância, contemplando o que o educando adulto precisa saber para a sua inserção no mundo letrado.
O sexto tema abordado por Pinto refere-se ao problema da alfabetização e das concepções que os educadores têm sobre a mesma. Deixa claro que é necessário partir do ponto de vista humanista e não idealista, ou seja, ver o analfabeto como ser humano, como fato real, concreto, para depois ver o aspecto sociológico, o analfabetismo. O analfabeto é, assim, uma realidade humana, enquanto o analfabetismo traduz-se como uma realidade sociológica.
Segundo o autor, o analfabeto, em sua essência, não é aquele que não sabe ler, e sim aquele que, por suas condições concretas de existência, não necessita ler, embora em sua existência, pela experiência e conhecimento, faça a sua própria leitura de mundo, que deve ser considerada e respeitada por todos.
O sétimo e último tema trabalhado pelo autor nos remete à questão da formação do educador, especialmente o educador de adultos. Considerada de suma importância um dos pontos que deve ser contemplado em todo programa de expressão pedagógica.
A pergunta feita inicialmente é “quem educa o educador?” Para a consciência ingênua, a resposta óbvia é “outro educador”, o que suscita novo questionamento: quem educa este educador que agora está educando o outro?
Segundo Pinto, o educador deve compreender que a fonte de sua aprendizagem, de sua formação é sempre a sociedade, mas que esta atua indiretamente quando o educador recebe os conhecimentos, e diretamente quando firma a sua consciência de educador.
Em sua análise, o autor deixa claro que a formação do educador está condicionada aos diferentes contextos e que nem sempre tem noção crítica de seu papel na sociedade, como forças atuantes no desenvolvimento econômico, político e cultural dessa mesma sociedade. Portanto, a formação do educador deve priorizar a sua função social, a sua indispensável vinculação ao povo. Neste aspecto tem-se verificado determinada inércia por parte dos educadores, que estacionam no caminho de sua formação profissional, já que se julgam detentores do saber. Essa inércia impede o acompanhamento do movimento da realidade vinculada ao povo. O autor afirma que a cultura é, por definição, uma totalidade e, por isso, é sempre possuída pelo povo como unidade social. Completa que o educador precisa compreender que o povo é a matriz de toda cultura, e que o saber não é, em si mesmo, cultura, senão que se torna tal quando representa um produto de consciência geral. Portanto, o educador só desempenhará com proveito suas funções se se conservar fiel às inspirações de seu povo, concretamente, das massas trabalhadoras de seu país.
Ao longo de todo o texto, o autor prioriza o conceito crítico de educação como diálogo entre educadores e educandos, num encontro das consciências. Nesse sentido, ambos se sentem sujeitos ativos do processo de aprendizagem e o educando, em lugar de estar sendo preparado para a sociedade, está, ao contrário, preparando-a para si.
O autor conclui seu trabalho enfatizando que no processo de educação não há uma desigualdade essencial entre dois seres, mas um encontro amistoso pelo qual um e outro se educam reciprocamente.
Por Erika Neves e Fernanda Nunes